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Economia do Ano: para quem?

Portugal foi distinguido pela revista britânica The Economist como a “Economia do Ano” de 2025. É um feito notável — o país que há uma década era o “mau aluno” da Europa, lidera agora o ranking anual que avalia o desempenho económico. Mas o que significa isto na prática? E para quem?

O que a The Economist viu

A revista elogiou vários indicadores: o crescimento do PIB acima da média europeia, a redução do défice, o investimento estrangeiro em alta, e a transformação digital da economia. Portugal cresceu mais do que a Alemanha, mais do que a França, mais do que a Itália. Em Bruxelas, Lisboa deixou de ser a palavra associada a “resgate” e passou a ser associada a “recuperação”.

Mas os rankings internacionais medem médias. E as médias, como sabemos, escondem desigualdades.

A outra face dos números

Enquanto a economia cresce, o salário mínimo nacional continua um dos mais baixos da Europa Ocidental. A habitação em Lisboa e no Porto está fora do alcance de uma geração inteira. Os jovens qualificados continuam a emigrar — agora não por desespero, mas por ambição. E a produtividade, aquele indicador que devia ser o orgulho de qualquer economia, continua estagnada.

Há um paradoxo no meio disto: Portugal cresce, mas os portugueses não sentem esse crescimento no bolso. O PIB sobe, mas o poder de compra desce. As empresas exportam mais, mas os trabalhadores ganham o mesmo.

O problema de fundo

O modelo de crescimento português continua a ser baseado em três pilares frágeis: turismo (que é sazonal e pouco qualificado), têxteis e calçado (que pagam salários baixos), e serviços de baixo valor acrescentado. A economia cresce, mas não se transforma.

A The Economist olha para os números macro e vê sucesso. O trabalhador português olha para o fim do mês e vê aperto. Ambos têm razão — estão apenas a olhar para coisas diferentes.

O que falta para ser verdadeiramente “Economia do Ano”

Falta que o crescimento chegue às pessoas. E isso não acontece por acaso — acontece com políticas deliberadas:

Salários — um salário mínimo que permita viver com dignidade, não apenas sobreviver
Habitação — políticas que travem a especulação e construam habitação acessível
Educação e qualificação — transformar a economia de baixo custo para alta qualificação
Fiscalidade justa — quem mais ganha paga a sua parte, e quem menos ganha não é esmagado

A The Economist distinguiu Portugal por aquilo que conseguimos fazer com as ferramentas erradas. Imagine o que não conseguiríamos com as ferramentas certas.

Uma vitória que deve ser celebrada — e questionada

Não estou a dizer que o prémio não é merecido. É. Portugal fez um caminho impressionante desde 2015. Mas celebrar sem questionar é o primeiro passo para estagnar. O verdadeiro teste não é crescer quando a Europa cresce — é crescer quando a Europa não cresce, e garantir que esse crescimento chega a todos.

A “Economia do Ano” é um título bonito. Agora falta tornar-se uma realidade para todos os portugueses.

— Acorán, Lisboa

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